A violência é uma questão social
mundial. Apresenta-se na sociedade contemporânea de forma multifacetada,
difusa.
No Brasil, em decorrência de seu
passado colonial, a violência tem se mostrado de forma estrutural, como
condições adversas impostas aos desfavorecidos e também de forma sistêmica,
como resultado do autoritarismo e do uso abusivo ou injusto do poder.
Essa violência sistêmica não é um
fenômeno novo no Brasil e sim uma continuação da tradição de práticas de
autoritarismo das elites contra as não elites, o que nos faz acreditar que o
passado ditatorial não está tão morto como se imagina.
As raízes desta violência
remontam, também, a uma fragmentação social, fruto de uma desagregação dos
princípios da solidariedade. Na verdade, houve um declínio dos valores
coletivos o que incentivou o crescimento de uma sociedade individualizada.
Nossos mitos Rouseaunianos do
Contrato Social, dos laços sociais, da prevalência da vontade geral e da idéia
de que as leis representam sempre a justiça, na verdade, morreram e com
eles, o vínculo existente entre o “eu” e o “outro”.
Essa ruptura se reflete no seio
das instituições sociais como a família, escola, religião e também no sistema
de Justiça Penal como um todo.
A Constituição Brasileira de 1988 trouxe um
enorme progresso na área da proteção dos Direitos Humanos ao conferir
tratamento especial aos direitos individuais, reconhecendo sua universalidade e
eficácia imediata. Porém, observa-se um paradoxo dentro da “Lei Maior” onde a
definição escrita das garantias constitucionais não se coaduna à realidade de
uma frágil cidadania.
O Código Penal Brasileiro de 1940
está em flagrante contraste com os preceitos constitucionais, na medida em que
dá ênfase ao patrimônio, ao invés de priorizar a tutela do direito à vida e a
liberdade, direitos estes fundamentais.
Esse descompasso entre a letra da
Constituição com as legislações infraconstitucionais é, também, uma forma de
violência.
Apesar das garantias democráticas
vigentes, ainda subsiste uma violência sistêmica onde o arbítrio das
instituições do Estado se coaduna com os altos índices de criminalidade
violenta e da impunidade.
A omissão das autoridades
diretamente responsáveis pelas instituições de controle da violência, assumem o
controle da tolerância e não de estímulos para conter as ações
criminosas.
Vivemos em uma era de incertezas.
Tem-se procurado saídas institucionais e políticas para conter a violência, mas
não se investem na busca de respostas através do saber cientifico.
Esse "pensar o Direito" não se limita apenas em compreendê-lo como um estudo das normas, precisa ir mais além. Operadores do Direito e nossos legisladores, precisam pensar mecanismos de conter a violência, sem que para isso inflacionem o sistema jurídico, criando leis desnecessárias ou asseverando as que já encontram-se positivadas. Esse, sem dúvida, não é o caminho adequado para um país que se diz democrático e que possui uma Constituição Política considerada cidadã.
Neste sentido, entendo que "pensar o Direito", enquanto ciência social que estuda o fenômeno jurídico, é ser capaz de compreendê-lo como mais um mecanismo à disposição da cidadania, como uma ciência social que deve pensar em políticas públicas eficazes que se incorporem às agendas políticas de um Estado Democrático de Direito, garantindo, através desse viés de compreensão, que os Direitos Humanos mais fundamentais sejam preservados, cuidando para que, não só a exclusão social diminua, como também a impunidade e os índices de violência e criminalidade.
Ana Sá Peixoto
Neste sentido, entendo que "pensar o Direito", enquanto ciência social que estuda o fenômeno jurídico, é ser capaz de compreendê-lo como mais um mecanismo à disposição da cidadania, como uma ciência social que deve pensar em políticas públicas eficazes que se incorporem às agendas políticas de um Estado Democrático de Direito, garantindo, através desse viés de compreensão, que os Direitos Humanos mais fundamentais sejam preservados, cuidando para que, não só a exclusão social diminua, como também a impunidade e os índices de violência e criminalidade.
Ana Sá Peixoto

Ana, parabéns pela iniciativa do Blog e pelo excelente artigo. Questões como Cidadania, Gênero e Direitos Humanos são temas sempre atuais. Continue assim, com o pensamento crítico e com fundamentação teórica. Sempre digo que tenho muito orgulho dos meus ex-alunos que conseguiram ultrapassar horizontes na pesquisa científica. Sucesso sempre.
ResponderExcluirAbraços do amigo
Murilo Gadelha
Obrigada Murilo, professor e amigo e profissional atuante do Judiciário. Suas considerações são valiosas. O blog tem a finalidade primeira de discutir questões sobre a violência de gênero, todavia, este primeiro artigo se fez necessário como um ponto de partida para novas discussões. Espero tê-lo em breve como membro atuante.
ResponderExcluirUm forte abraço
Ana
Olá amiga Ana, parabéns pelo belo texto, com idéias claras e bem organizado, demonstrando o talento de uma nascente escritora. Tema da mais importante relevância e que possui presença em diversos e distintos setores de nossa sociedade. Silvério. www.doutorsilverio.com
ResponderExcluirOlá Professor Silvério, grata pelas suas considerações. Sem dúvida um tema da mais relevante importância na atualidade. Espero, com muita honra, tê-lo em breve como membro seguidor. Um grande abraço.
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