VIVENDO SOB ESCOMBROS
Certa vez, conta a História, em 1755 Lisboa sofreu um violento terremoto, dizimando milhares de pessoas e, como medidas de emergência, o Marquês de Pombal, então Ministro de D. José I (Rei de Portugal), determinou severamente:
"Enterrem os mortos, cuidem dos vivos e fechem os portos"
Duras palavras, porém necessárias...A alma humana também é região propícia para tais abalos e quando eles acontecem, achamos que não os merecemos.
Comparo a violência sexual a um desses abalos de grande magnitude que acometem suas vítimas de "súbito". É muito difícil sobreviver a situações tão inóspitas. Acreditamos, em um primeiro momento, que seja tarefa penosa demais e que não se suportará tamanha dor.
As vítimas de violência sexual, sobretudo quando esse evento acontece no ambiente doméstico e familiar, passam por estágios de negação, revolta, medo, culpa, angústia e desespero. Todavia, quando se atinge o estágio da "aceitação da realidade", elas se dão conta de um cotidiano destruído.
Realmente, não é fácil focar o futuro quando tudo, ao seu redor, desmorona. Sim, é desta forma que vítimas de violência sexual se sentem diante do evento traumático, como se estivessem "vivendo sob escombros". Elas acreditam que os sonhos, ideais e planos traçados melimetricamente, ficaram soterrados.
Sentimentos de impotência são muitas vezes comuns e presentes, fazendo com que pensem que jamais sairão dos escombros ou que não haverá salvação para os seus tormentos. Sentem-se deprimidas e, por isso, as horas passam sem importância. A sensação de sufocação é impactante, como ter vontade de gritar e não poder, porém, quando conseguem, o grito soa pra dentro.
Quando uma mulher é vítima dessa violência, ela sente que sua força (energia física) e coragem (energia moral) começam a se esvair e sobrevém uma certeza de que não conseguirá superar o silêncio imposto pelo evento, imaginando que esse tormento nunca terá fim, o que não é verdade.
Hoje se tem conhecimento de que sensações como estas podem ser reversíveis quando se rompe a barreira do silêncio, denunciando o agressor. Existe uma gama de instituições públicas e privadas que dão amparo com eficácia às mulheres vítimas de violência sexual. Existe também o aparato legal, como a Lei Maria da Penha que dá proteção integral às mulheres vítimas de violência doméstica.
Romper o silêncio e denunciar o agressor é a palavra de ordem e faz parte de um processo de reconstrução pela qual a vítima deverá passar. "Reconstruir para recomeçar", sem dúvida, será a uma grande tarefa para todas a mulheres que sofreram violência desta natureza. Porém, estejam atentas: O processo de reconstrução começa com a denúncia do agressor.
"Enterrar os mortos" é parar de explorar essa terrível tragédia como algo sem solução, tratamento e apoio adequados. O Estado está mobilizado e atendo a esta demanda.
"Fechar os portos" é se fortalecer para uma nova vida, curando suas feridas. É manter o foco na reconstrução, o que certamente é possível e viável.
"Cuidar dos vivos" é tomar conta do presente, valorizando o que há de melhor em suas vidas: A coragem por ter denunciado o agressor.
A denúncia do agressor é muito importante, não só para a vítima, mas também para a sociedade como um todo, pois impede que se estabeleça o sentimento de impunidade.
E depois dessa difícil jornada "sob os escombros" que as mulheres vítimas dessa dolorosa violência, possam ser capazes de erguer um lindo monumento em suas almas, edificando um dos sentimentos mais nobres do ser humano: A Coragem.
Ana Sá Peixoto

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